CAMPEÕES NA ITÁLIA
Por Álvaro Blasina

Conhecer o Campeonato Internacional de Reggio Emilia, era uma idéia que nos perseguia já havia bastante tempo, e nos parecia mentira que ela se estivesse transformando em realidade.

Acabara de chegar no recinto acompanhado de alguns criadores de Varese que gentilmente me ofereceram carona para ir na entrega dos pássaros. Cheguei, entrei no local, e fiquei deslumbrado com a qualidade das gaiolas, a iluminação natural, a organização perfeita, a disciplina dos criadores, etc. O amigo criador Maurizio Cecchin me ajudou a soltar os pássaros e eu me prontificava à também ajuda-lo com os seus, quando uma mão súbita e firmemente me segurou pelo braço, e me disse decidido: “acompanhe-me, faço questão de lhe mostrar uma coisa”. Era o Sr. Renzo Grisende, Secretário Geral da Società Ornitologica Reggiana e responsável geral pela organização do evento. O Sr. Grisende me guiou até o pavilhão central e me disse: “olhe!! É a bandeira do Brasil....... tivemos de comprar, pois é a primeira vez que alguém vem do seu país para concorrer aqui. Vi a belíssima bandeira, compartilhando o pavilhão junto com dezenas de outras, e cada fio dos meus cabelos ficou arrepiado. A emoção foi muito grande, e pensei para mim mesmo: já valeu a pena todo o esforço de termos chegado até aqui. Mas muito ainda estava por acontecer.

Competir no Hemisfério Norte, é um desafio dobrado. Os canários tem o seu ciclo reprodutivo na primavera, e o seu melhor momento para os concursos é no final do outono, de forma que competir na Europa significa ir com uma considerável desvantagem. As fêmeas jamais poderão concorrer pois estão em pleno período de cria. Os machos não podem reproduzir pois a atividade da cria os desmerece notoriamente, ora quebrando suas penas, ora perdendo algumas, etc. A distância da viagem, o fuso horário e a diferença drástica de clima, representa um fator de stress muito grande. A tudo isto, se deve somar as dúvidas no que refere à aplicação e interpretação dos critérios de julgamento.

Em fim, inúmeras são as dificuldades que devemos transpor. Não é à toa que nunca ninguém do Hemisfério Sul participou deste Campeonato. Já conhecíamos antecedentes do Sr. Paul Richard com agapornis e do Sr. César del Rio com exóticos em Campeonatos Mundiais, mas com canários nunca, pois eles especificamente estão em desvantagem pelo período de cria mencionado.

O Campeonato de Reggio Emilia, é considerado o maior Campeonato Aberto de pássaros do Mundo. Já tinha muito ouvido falar nele, do seu tamanho, do seu volume, da qualidade dos pássaros, da impressionante afluência de público, mas confesso que mesmo assim nunca imaginei que poderia ser tão grandioso.

Os nossos objetivos

 Decidimos com a Fátima, viajar para conhecer esse tão comentado campeonato, mas algo me dizia que apenas ir só para conhecer, não seria verdadeiramente emocionante. Poder sentir o gostinho de competir, era algo infinitamente mais excitante e animador. Assim foi que “embarcamos” nessa idéia, com a inestimável ajuda do meu amigo irmão Mário Vicenzo. Ele me encorajou, me disse que ajudaria e foi então que me decidi. Já que levaríamos uns poucos canários para concurso, nos animamos também para encarar outra aventura. A nova mutação de canários de bico vermelho estava produzindo muitos filhotes e me animei para inscreve-los num setor diferenciado que se chama “pássaros fora de concurso” destinado à exemplares cujas características ainda não foram aceitas pela COM. Estes exemplares, embora não estejam disputando prêmios, são avaliados pelos juizes e vistos pelo público.

Todos estes objetivos já seriam o bastante para estarmos animados, mas ainda existia um, o maior talvez, ou quem sabe o grande sonho....Levávamos em nossa bagagem, uma idéia, um grito, um desejo enorme de dizer que no Brasil, existem muitos criadores que trabalham seriamente, que não se curvam ou se conformam com a idéia de que o único caminho do sucesso é importar eternamente matrizes do norte, que não se limitam apenas a admirar, mas buscam a superação, se empenham e conseguem.

A inscrição

 O volume de criadores que deseja participar neste Torneio é tão grande, que os organizadores se viram obrigados à limitar e rejeitar algumas inscrições por falta de espaço físico, embora o local seja enorme. São aproximadamente 14.000 aves em concurso.

Desta forma, o limite máximo de canários inscritos por criador é de 50, o período de inscrição dura apenas 3 horas, e ele é feito por fax. Assim sendo, todo o mundo fica tentando insistentemente, até conseguir sinal e fazer sua inscrição.

A organização da prioridade aos criadores estrangeiros, depois aos sócios da SOR (Società Ornitologica Reggiana) e finalmente aos outros criadores Italianos.

As instalações

O local consta de dois pavilhões enormes, interligados por um corredor, sendo que num deles são alojados os pássaros de concurso e no outro se realiza a Feira onde os criadores levam seus exemplares para venda.

No pavilhão do concurso, também se encontram uma infinidade de stands comerciais, onde várias empresas de alimentação, fábricas de gaiolas, implementos, aparelhos, e inúmeros apetrechos dedicados à criação de pássaros são expostos.

Para se ter uma idéia do tamanho total, várias pessoas da organização se deslocam de bicicleta dentro do pavilhão para poder cobrir todas as áreas do mesmo.

O Calendário

Feita a inscrição, o evento dura uma semana, mas no que refere à visitação tem algumas particularidades.

Na Segunda feira, é o dia do “engabbiamento” (entrega dos pássaros). Formando uma educada fila, os criadores devem chegar munidos da documentação necessária. Primeiro, devem apresentar o atestado veterinário que à autoridade competente, depois devem mostrar uma cópia da inscrição e comprovante de pagamento. Como são quase 900 criadores competindo, as pastas de cada criador estão em mesas diferentes por ordem alfabética. Retira-se a pasta, e imediatamente uma pessoa da organização devidamente identificada acompanha o criador até o local onde estão as suas gaiolas.

Os canários de cada criador estão colocados todos juntos por razões de segurança conforme explicaremos mais adiante.

Solta-se os canários, lacra-se cada gaiola, e o criador deve retirar-se do pavilhão.

Na terça, quarta e às vezes quinta feira, é o julgamento. Os criadores não podem assistir, e somente vão no recinto, os juizes e as pessoas da organização. A principio, parece uma medida antipática, mas a idéia na Europa, é de que o julgamento se desenvolve com muito mais lisura e principalmente, consideram que como para cada pássaro exposto é feito um julgamento e a planilha correspondente é propriedade do criador, este último obterá todas as informações sobre o seu pássaro, assinada e carimbada pelo juiz atuante. São assim, 3 longos dias de espera e expectativa.

Na quinta feira, os resultados são publicados na Internet, na página da SOR.

Na sexta feira, às 16 hs é efetuada a inauguração oficial para as autoridades. Sábado e domingo são os dias previstos para a visitação pública.

No domingo, pontualmente às 18 hs é a retirada de todos os pássaros. A autorização é dada pontualmente pelos alto-falantes e respeitada com disciplina impar. Ninguém durante todos estes dias pode em hipótese alguma por a mão nas gaiolas. Cada criador retira os seus pássaros na hora prevista, de forma que na retirada ele mesmo estará vigiando seus próprios pássaros.

Curiosamente, não existe jantar de entrega de prêmios, por não haver local suficientemente grande para alojar tanta gente. Se consideramos que concorrem 900 criadores, somamos suas famílias, autoridades, etc., é impraticável a realização do jantar. Assim sendo, tem hora marcada para a retirada dos prêmios na secretaria, no próprio local.

A Feira

Um enorme pavilhão, com incontáveis gaiolas, prateleiras, voadeiras, etc., é montado para o setor de vendas. Algo impressionante verdadeiramente. Basicamente para cada tipo de ave existe um setor, de forma que os psitacídeos estão mais ou menos reunidos, assim como os canários, os exóticos, os nativos, etc. etc. Um movimento que surpreende a cada minuto. Onde a gente olha existem criadores negociando, olhando, comprando, oferecendo, passeando, um verdadeiro “formigueiro”.

O Público

Impossível estimar quantas pessoas comparecem à exposição. Uma estacionamento enorme do Parque de Exposições é lotado em questão de meia hora. A exposição é aberta ao público às 8,30 hs e às 9.00 hs já não tem mais vaga no estacionamento. Inúmeras pessoas aparecem de todos os cantos com uma gaiolinha ou transporte na mão, indo para ver os pássaros e fazer suas compras. O ingresso é livre para expositores e juizes, mas é pago para o restante do público. A gente ouve falar em diversas línguas. Espanhol, alemão, francês, italiano, etc. etc.

A nossa experiência

Chegamos com os pássaros e muita expectativa. Sentiram bastante a viagem pois desde a partida do Rio, fazendo a escala em São Paulo, até a chegada foram muitas horas de vôo. Demos um trato, umas vitaminas, e em 24 horas estavam bastante recuperados.

Alguns criadores vieram para “curiosear” e ficaram impressionados. Garantiram que haviam exemplares de qualidade “jamais vista na Itália”, o que nos animou bastante . Depois de entregar os canários, ficamos esperando a hora da divulgação dos resultados, até que ficamos gelados ao ver o nosso nome, nada mais nem nada menos que 3 vezes entre os Campeões. Um rubino marfim mosaico, um verde mosaico e um canela vermelho intenso. Estes dois últimos obtiveram 92 pontos e o rubino 91, pois todos os lipocrômicos mosaicos com fator vermelho, quando tem as asas coloridas de ninho são penalizados em 1 ponto.

Aí, a festa foi total. Os amigos italianos ligaram felizes pelo resultado, e tivemos a emoção de superar todas as expectativas e sentir que tínhamos feito nosso papel na divulgação do Brasil no Hemisfério Norte.

A sensação que os “bico vermelho” causou entre os criadores foi algo surpreendente. Era um verdadeiro desfile de gente para ver a novidade da exposição. No ato da inauguração, todas as autoridade foram convidadas para ver estes exemplares e recebemos os parabéns do Sr. Presidente da Ordem Mundial de Juízes Sr. Pierre Groux e do Sr. Presidente da Società Ornitológica Reggiana Sr. Enrico Banfi.

Sem dúvida, vivemos dias inesquecíveis, pelo carinho recebido pelos criadores, juizes, organizadores, em fim, uma verdadeira festa onde nos sentimos verdadeiramente em família.

Tão emocionante como as conquistas foi a felicidade de encontrar pessoas com valores humanos tão nobres como os manifestados por Mário Vicenzo e sua esposa Maria Carla.

A incrível coincidência (ou não), foi o fato do julgamento dos nossos pássaros ter ocorrido exatamente no dia do aniversário do meu querido Pai, que sempre nos incentivou, desde pequeno se mostrou um companheiro inigualável. Percebendo nosso amor pelas aves nos presenteou logo na infância com o primeiro casal de canários, e deu para todos os que o conheceram um verdadeiro exemplo de entrega, simplicidade e amor. O duro golpe de sua tão prematura partida, é uma lágrima constante no nosso coração, e nada mais justo que dedicar-lhe estas vitórias. O carinho que soube nos dar sempre, é um exemplo que pretendemos seguir até o fim dos nossos dias.

Gostaríamos de agradecer também, a todos e tantos amigos criadores espalhados pelo Brasil que tanto apoio e amizade sincera tem nos dado . Continuaremos seguindo nossos ideais de trabalho, amor pela canaricultura, honestidade e busca do bem..... Com estes “combustíveis”, sentiremos energias para ir em frente e buscar à cada vez novos horizontes.

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